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Boris Cherny: por que coding está resolvido — e o que vem depois

Na Sequoia Capital, o criador do Claude Code explica por que coding virou commodity, como o harness perde peso e por que equipes cross-disciplinares serão o novo padrão.

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Patrick Cardoso

Categoria Tecnologia
Boris Cherny: por que coding está resolvido — e o que vem depois
Ilustração Editorial por IA / ai.patrickcardoso.

Em maio de 2026, Boris Cherny subiu ao palco da Sequoia Capital e disse a frase que virou manchete: “coding está resolvido”. A fala não é sobre fim do trabalho — é sobre mudança de natureza. Quando o próprio criador do Claude Code afirma que 100% do código na Anthropic já é escrito por modelos, o centro de gravidade do software se move do “como escrever” para o “como orquestrar”.

A entrevista — metade palestra, metade Q&A com fundadores — mostra como o produto saiu do laboratório, como a equipe encontrou PMF e por que a próxima década deve ser definida por loops de agentes, não por IDEs com autocomplete.

Quando o código vira commodity, o diferencial deixa de ser sintaxe e passa a ser arquitetura de trabalho.

— Patrick Cardoso

O Claude Code nasceu de um product overhang

O Claude Code começou dentro do Anthropic Labs, no fim de 2024, com um time enxuto. Não era uma resposta a um produto concorrente, mas a um excesso de capacidade do modelo: o Sonnet 3.5 já entregava type-ahead de qualidade, mas não existia produto capturando aquela potência. O salto seguinte foi óbvio: em vez de completar linhas, o agente escreveria todo o código.

Essa decisão definiu o DNA do produto. Em vez de “assistente de IDE”, o Claude Code virou ambiente de trabalho autônomo, com agentes que planejam, executam e revisam sem o humano ficar preso ao modo chat.

PMF não veio no launch — veio no modelo seguinte

Boris é direto: nos primeiros seis meses, o produto era “barely usable”. Ele próprio usava para cerca de 10% do seu código. O crescimento real só aconteceu com Opus 4, em maio de 2025. Depois disso, cada release virou uma inflexão: 4.5, 4.6, 4.7.

A estratégia era deliberada: construir pré-PMF para o próximo modelo. A equipe sabia que o ganho de capacidade viria e, quando veio, o produto estava pronto para capturar. Essa é uma lição que poucas startups internalizam — e talvez a principal do talk.

O setup pessoal de Boris é quase ficção científica

Hoje, Boris trabalha principalmente pelo celular. Ele mantém 5–10 sessões abertas, cada uma com múltiplos agentes. Durante o dia, são centenas de agentes em paralelo; à noite, milhares rodando tarefas mais profundas. O recorde pessoal: 150 PRs em um único dia. Desde outubro de 2025, 100% do código dele é escrito por modelos.

A ferramenta favorita é o comando /loop, com jobs recorrentes em cron — a cada minuto, a cada 5 minutos, diariamente. Entre os loops ativos:

  • babysitter de PRs (corrige CI, rebase automático)
  • loop de qualidade de CI (detecta flaky test e corrige)
  • loop de feedback do Twitter, com clusterização a cada 30 minutos

O próximo produto é a versão server-side disso: Routines — loops que continuam rodando mesmo com o laptop fechado.

“Coding está resolvido” — mas só para quem acompanha o ritmo

Para bases de código grandes, linguagens raras ou stacks exóticas, Boris não promete milagre. A resposta dele é quase irônica: “just wait for the next model”. A escolha original por TypeScript + React foi pragmática: era on-distribution. Hoje, o modelo escreve praticamente qualquer linguagem.

O ponto real é que o gargalo não está mais em escrever. Está em definir, validar e orquestrar o que deve ser escrito.

Equipes cross-disciplinares serão o novo padrão

O “generalista” de hoje é o engenheiro full-stack. O “generalista” de amanhã é cross-disciplinar: engenharia + design + produto + data science. No time do Claude Code, PM, designer, data scientist, finance e pesquisador de UX todos escrevem código.

Dentro da Anthropic, a regra já é outra: nenhum SQL é escrito manualmente. Nenhum código é escrito manualmente. Claudes se conversam via Slack MCP e loops diferentes trocam contexto sem depender do humano. A vantagem real da empresa, diz Boris, não é acesso a modelos exclusivos — é estrutura organizacional e processo.

SaaS Apocalypse: o que perde força, o que segue relevante

Usando a lente das “7 Powers” do Hamilton Helmer, Boris argumenta que switching costs e process power perdem força com agentes. Modelos tornam a portabilidade mais fácil e conseguem fazer hill climbing iterativo de qualquer processo.

Por outro lado, network effects, scale economies e cornered resources continuam intactos. A previsão é agressiva: 10x mais startups disruptivas nos próximos 10 anos, porque empresas grandes têm atrito interno, enquanto startups AI-native começam do zero.

Democratização do código: a analogia com a imprensa

Boris faz uma analogia histórica com Gutenberg. Antes da imprensa, só 10% da Europa era letrada; 50 anos depois, havia mais livros do que nos mil anos anteriores. O custo do livro caiu 100x. Séculos depois, a alfabetização global chegou a 70%.

O paralelo com software é direto: coding vira skill universal. E o melhor autor de um software contábil provavelmente será o contador, não o engenheiro. O domínio vence a sintaxe.

Harness vs. modelo: a balança vai mudar de novo

Na época em que o Claude Code encontrou PMF, a importância era 50/50 entre modelo e produto. Boris acredita que, com modelos melhores, o harness perde peso relativo. Safety mechanisms como prompt injection, permission modes e human-in-the-loop devem ficar menos necessários conforme o alinhamento melhora.

O roadmap vai nessa direção: loops e batch como first-class citizens e orquestração massiva de agentes com cada vez menos fricção.

Local ou cloud? Em breve, a resposta não importa

Quando perguntado sobre local vs. cloud, Boris foi direto: “doesn’t matter”. Ele acredita que, em poucos anos, o próprio modelo decidirá onde rodar cada agente, levando custo e latência em conta automaticamente.

O que vem depois do coding

O grande take-away é simples: se coding está resolvido, o que vem depois é coordenação, processo e arquitetura de trabalho. Quem dominar loops, orquestração e contexto contínuo terá vantagem real — não quem escreve a sintaxe mais rápido.

A próxima década não será sobre quem programa melhor. Será sobre quem organiza melhor o trabalho entre humanos, agentes e decisões.

Fontes

  • Entrevista de Boris Cherny na Sequoia Capital (maio de 2026).

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